Página da FUNDAÇÃO ACANGAÚ
AS COISAS SERÃO MAIS COMPREENSÍVEIS E MAIS FÁCEIS DE EXECUTAR SE FOREM MAIS SIMPLES.
FUNDAÇÃO ACANGAÚ - Caixa Postal 123 - Paracatu, Minas Gerais, Brasil - 38600

Salve-nos da matança invisível

          O mundo assiste a uma nova corrida do ouro. A causa disso é o aumento acentuado do preço desse metal, que em março de 2008 atingiu a marca histórica de cerca de 1000 dólares por onça troy nas bolsas de valores.
          Em seis anos, o preço do ouro quase quadruplicou. Em 2003, o mercado mundial demandou em torno de 2600 toneladas de ouro, cerca de cem vezes mais do que no século 19.
          Neste mesmo ano, segundo o Conselho Mundial do Ouro (World Gold Council), 78 % do ouro foram destinados à produção de jóias. A quantidade de ouro empregada em correntinhas e anéis aumentou de quatro vezes em 30 anos. A indústria eletrônica e odontológica consumiu apenas cerca de 15 % da produção.
          A mineração de ouro moderna destrói o meio ambiente, expulsa pessoas de suas terras e libera para o ambiente milhões de toneladas de arsênio, um dos venenos mais potentes que se conhece. Essa febre do ouro financia uma matança invisível em todo o mundo.
          Milhões de pessoas estão ficando doentes ou morrendo todos os dias no mundo, sem saber que a causa disso é o envenenamento crônico por arsênio.
Figura 1 – Províncias de ouro no mundo. Fonte: Gosselin P, Dubé B (2005) Gold deposits and gold districts of the world. Geological Survey of Canada, Open File, 4893. http://apps1.gdr.nrcan.gc.ca/mirage/show_image_e.php
Por que o arsênio é venenoso?

          O arsênio interfere em várias reações enzimáticas, afetando todos os sistemas de órgãos do corpo. Todas as 10 principais causas de morte classificadas pela OMS-Organização Mundial da Saúde (WHO-World Health Organization) podem ser causadas por arsênio: doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, doenças do sistema nervoso, entre outras. Mesmo as doenças infecciosas podem ser agravadas por arsênio, porque o arsênio perturba o funcionamento normal do sistema imunológico.
          O arsênio ocorre naturalmente em todo o mundo, mas algumas atividades humanas como a mineração de ouro em rocha dura, bem como a queima de carvão mineral e petróleo e o uso de água subterrânea contaminada superaram amplamente as fontes naturais [1].
          A mineração de ouro em rocha dura é a fonte mais importante de poluição porque libera milhões de toneladas de arsênio das rochas por ano, em várias regiões do planeta. Esse volume gigantesco de arsênio liberado é uma causa persistente de matança em massa em todo o mundo.
Figura 2 – Concentração de arsênio nos solos da Europa (2007). Fonte: FOREGS-Projekt. http://www.gtk.fi/publ/foregsatlas/maps/Floodplain/f_xrf_as_edit.pdf
           Além disso, o arsênio ainda é utilizado como ingrediente na indústria, incluindo os aditivos, medicamentos, pesticidas, conservantes, vidro e outras indústrias.
           Apenas uma parte de arsênio por mil partes de água potável (1 ppb) durante um longo tempo de exposição já constitui um risco para a saúde e o ambiente [2-5]. No entanto, muitos países ainda adotam 10 partes por bilhão (10 ppb ou 10 microgramas / litro) como a concentração máxima permitida por lei.
          Menos de 10 partes de arsênio por milhão de partes de solo (<10 ppm  ou <10 mg / kg) estão associadas com prevalência e mortalidade da doença de Alzheimer e outras demências [6]. No entanto, muitos países ainda adotam concentrações máximas variando de 1 a 10 ppm.
Por que a mineração de ouro é tão perigosa?

          O ouro ocorre freqüentemente em rochas contendo arsênio. Atividades de mineração em rocha dura que envolvem britagem e moagem de rochas contendo arsênio (especialmente a arsenopirita) resultam na dispersão de quantidades inacreditáveis de arsênio tóxico que de outra forma estaria preso nas rochas sem causar mal.

          Em Paracatu, por exemplo, a maior mineração de ouro a céu aberto do Brasil operada pela mineradora canadense Kinross Gold Corporation está levando a um aumento persistente da concentração de arsênio em sedimentos, solos, águas e ar em torno da cidade de 84 mil habitantes [7]. Este é um dos piores casos de poluição ambiental e genocídio causados pela liberação de arsênio no mundo.
Figura 3 – A maior mina a céu aberto de ouro do Brasil, operada pela mineradora transnacional canadense Kinross Gold Corporation em Paracatu, causa um dos mais graves e persistentes aumentos da concentração natural de arsênio no mundo, nas cercanias da cidade de 84000 habitantes. Foto de Beto Magalhães (2008).
          O arsênio liberado pode percorrer longas distâncias através do vento e da água, afetando a saúde de plantas, animais e seres humanos em uma escala global, mesmo décadas ou séculos após as operações de mineração terem sido encerradas!
          Mineradoras transnacionais como Kinross Gold Corporation, Anglo Gold e Barrick Gold não assumem as perdas e danos que causam ao ambiente e à saúde porque, se assim fizessem, deixariam claro que a mineração de ouro em rocha dura é econômicamente inviável. As pessoas e os governos é quem pagam a conta da destruição e da poluição persistente e invisível: as primeiras pagam com a saúde e a vida, os segundos com os impostos pagos pelo povo.
          Nosso corpo absorve arsênio principalmente por ingestão e inalação. Entretanto nós não percebemos isso porque o arsênio é inodoro, insípido e incolor. Esse processo é cumulativo. Como efeito da exposição crônica mesmo a baixas concentrações de arsênio, um sem-número de células adoecem ou morrem diariamente em nosso corpo: uma verdadeira matança invisível.
          As doenças associadas ao arsênio normalmente têm um longo período de latência, de modo que muitos pacientes expostos ao arsênio permanecen assintomáticos por muitos anos ou décadas. Tipicamente, as perdas e os danos à saúde só são percebidos após o término das atividades de mineração.
          As doenças crônicas causadas por arsênio causam sofrimentos no mundo inteiro e representam uma enorme carga econômica e um transtorno para a saúde das famílias, dos países e da humanidade.
Figura 4 – Arsênio na água subterrânea do mundo. Fonte: Amini M, Abbaspour KC, Berg M, Winkel L, Hug SJ, Hoehn E, Yang H, Johnson CA. 2008. Preliminary statistical modeling of global geogenic arsenic contamination in groundwater. Environmental Science & Technology 42:3669-3675.
Essa matança irresponsável e invisível deve parar. Cada um de nós pode ajudar, apoiando esta campanha mundial visando alcançar os seguintes resultados:

• Impor uma proibição imediata da mineração de ouro em rochas duras contendo arsênio, como a arsenopirita. Os críticos afirmam: em princípio, não é mais preciso minerar ouro atualmente. Apenas o ouro guardado nos poroes dos bancos centrais já soma milhares de toneladas. Se essas reservas fossem colocadas novamente no mercado, a mineração de ouro seria drasticamente reduzida, ou mesmo suspensa por muitos anos. Em 2007, os maiores acumuladores de estoques de ouro eram os Estados Unidos com 8133 toneladas e a Alemanha com 3417 toneladas. A Alemanha ainda tem 3217 toneladas com o Fundo Monetário Internacional (FMI).


Impor uma proibição imediata de arsênio em alimentos, aditivos alimentícios, fertilizantes e pesticidas usados na agricultura e na criação de animais;

Reduzir o limite provisório de arsênio na água potável de 10 ppb para <1 ppb (<1 micrograma / litro). Como não existe dose segura para uma substância cancerígena como o arsênio, a concentração ideal de arsênio na água potável deveria ser 0 ppb. O limite <1 ppb é fixado exclusivamente em função do limite de detecção dos laboratórios de análise;

Proibir toda e qualquer atividade humana que resulte no aumento das concentrações naturais de arsênio em ambientes naturais ou artificiais. A concentração média natural de arsênio nas águas de superfície média é 1 parte por bilhão (ppb) [8]. As concentrações de arsênio nas águas subterrâneas podem ultrapassar amplamente esse limite em muitas regiões do mundo [9], portanto o uso de água subterrânea contaminada com arsênio deve estar sujeita a restrições legais. A concentração média natural de arsênio em solos e sedimentos no mundo é de 1 ppm (1 mg / kg) [intervalo: <0.10 a 100 ppm]  [10]. Qualquer elevação artificial das concentrações naturais de arsênio nos solos representa risco aumentado de ingestão e inalação e portanto deve ser proibida e tratada em conformidade.
 
Listar o arsênio como um poluente perigoso do ar, solo e água, definido como uma substância que pode causar um aumento da morbidade e mortalidade em seres humanos crônicamente expostos a concentrações de baixo nível [11].


O que cada um de nós pode fazer pessoalmente?

Nós podemos evitar de comprar jóias de ouro produzidas em massa pela indústria. Quem compra ouro deve estar ciente do preço real de um colar ou pulseira de ouro: milhões de toneladas de rochas trituradas e terra revolvida, paisagens devastadas, bilhões de litros de água poluída nos rios e pessoas vivendo na miséria e na doença, ou expulsas de suas terras. O peso do brilho dourado e caro revela-se no volume impressionante dos resíduos tóxicos, solo e rocha que são necessários para obter o ouro de apenas um anel de casamento: 20 toneladas!

Nós podemos reciclar ou transformar jóias antigas e outros objetos ou produtos contendo ouro.

• Nós podemos conversar com os joalheiros sobre os problemas ambientais da mineração de ouro e enviar relatórios dessas conversas para as organizações de defesa dos direitos humanos e proteção da natureza (*). Nós podemos chamar a atenção para o uso de “ouro certificado” obtido segundo os mais elevados padrões sociais e ambientais, em vez do uso de “ouro sujo”.


• Nós podemos contrapor à imagem de pureza do ouro a horrenda e mortal realidade, por exemplo, através de cartas, artigos em jornais e revistas, filmes, videoclips, etc.


Nós podemos evitar de colocar “presentes dourados” debaixo da árvore de natal, e em outras ocasiões festivas.

Nós podemos colocar este relatório no salão de beleza, na sala de espera do nosso médico ou outros locais.

• Nós podemos apoiar o apelo das organizações de desenvolvimento e de política (*) junto aos governos e ao Banco Mundial para que empréstimos não sejam mais concedidos para minas de ouro.


Nós podemos conversar sobre o problema com os vereadores, deputados, senadores ou membros do parlamento do nosso círculo eleitoral e cobrar-lhes atitude.

Nós podemos refletir sobre essas perguntas: para que serve realmente o ouro? podemos viver sem ele?
Referências:

(*) e.g.: Bill and Melinda Gates Foundation, Care International, Caritas International, Concern Worldwide, Consciencia Solidaria, Doctors Without Borders (Médecins Sans Frontières), FIAN, Friends of the Earth, Friends of Peoples Close to Nature  (Freunde der Naturvölker e.V.), Fundacao Acangau, Greenpeace, Halifax Initiative, International Society for Threatened People (GfbV-Gesellschaft für bedrohte Völker), Mines and Communities, Mining Watch Canada, Misereor, Rettet den Regenwald, Survival International, Urwald, World Wide Fund for Nature (WWF), entre outras.
http://en.wikipedia.org/wiki/Friends_of_Peoples_Close_to_Nature


1. Dani SU. Gold, coal and oil. Medical Hypotheses 2010 Mar; 74 (3):534-41.

2. Arsenic in drinking water: 2001 Update, National Academy of Sciences of the USA.

3. United Nations Synthesis Report on Arsenic in Drinking-Water. WHO, 2001.
http://www.who.int/water_sanitation_health/dwq/arsenic3/en/

4. Eisler R. A review of arsenic hazards to plants and animals with emphasis on fishery and wildlife resources. In: J. O. Nriagu, ed. Arsenic in the Environment, Part II: Human Health and Ecosystem Effects. John Willey and Sons, New York, NY, USA, 1994: pp. 185-259.

5. Smith AH, Steinmaus C, Yuan Y, Liaw J, Hira-Smith MM. High concentrations of arsenic in drinking water result in the highest known increases in mortality attributable to any environmental exposure. Proceedings of a Symposium: Arsenic – The Geography of a Global Problem. Royal Geographical Society: Arsenic Conference, 29th August 2007.
http://www.geog.cam.ac.uk/research/projects/arsenic/symposium

6. Dani SU. Arsenic for the fool: an exponential relation. Science of the Total Environment 2010 Mar 15; 408 (8):1842-6.

7.
http://sosarsenic.blogspot.com
http://alertaparacatu.blogspot.com

8. Agency for Toxic Substances and Disease Registry. 2007. Toxicological profile for arsenic. Draft for Public Comment. Atlanta GA [updated 2007 August].
http://www.atsdr.cdc.gov/toxprofiles/tp2.html


9. Ravenscroft P, Brammer H, Richards K. 2009. Arsenic Pollution: A Global Synthesis. Wiley-Blackwell. ISBN-978-1-4051-8601-8

10. Shacklette HT, Boerngen JG. 1984. Element concentrations in soils and other surficial materials of the conterminous United States: Reston VA: U.S. Geological Survey. Professional Paper 1270. p. 6.

11. U.S. Environmental Protection Agency. Arsenic compounds hazard summary. Technology transfer network air toxics website. Washington DC [updated 2007 November 6]. http://www.epa.gov/ttn/atw/hlthef/arsenic.html


Mais informações pela internet:

Sergio Ulhoa Dani, Dr.med. (DE), D.Sc. habil. (BR)
FORMULÁRIO PARA CONTATO
CLIQUE NA FIGURA ACIMA PARA ACESSAR
O ESPAÇO PÚBLICO DE DEBATE
  
  
Página da FUNDAÇÃO ACANGAÚ